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pexels andrea piacquadio

Vamos percorrer a cadeia de produção das nossas roupas

Ir às compras dá-nos tanto prazer que raramente consideramos outras coisas senão o nosso desejo por aquela determinada peça e os números antes da vírgula, certo? Pois é justamente esse o paradigma que queremos mudar. As nossas decisões de compra sempre serão baseadas no nosso gosto e no preço, e está tudo bem com isso! Mas há outros valores igualmente importantes que precisamos começar a ponderar na hora de escolher uma roupa. E a isso chamamos consumo consciente.

Consciência requer informação e, antes que se pergunte, já estamos cá para contar-lhe um pouco sobre a cadeia de produção das nossas roupas.

As cadeias de suprimentos geralmente envolvem muitas pessoas em muitos níveis de produção. A indústria de roupas, têxteis e calçados exige mão-de-obra massiva, e estima-se que empregue mais de 75 milhões de pessoas em todo o mundo – 140 mil só em Portugal. Os elos dessa cadeia conectam (a) a fonte de matérias-primas, (b) as fábricas onde esses materiais são transformados em roupas e (c) a rede de distribuição por meio da qual as roupas serão entregues aos consumidores. Além das pessoas, essa cadeia também envolve toneladas de água, energia, plantações e produtos químicos. E é essa amálgama que permite que as peças cheguem ao seu roupeiro.

Nos últimos 20 anos houve uma grande demanda por rapidez, volume e preços baixos na moda. A resposta veio na forma da fast fashion: produção rápida e volumosa, materiais de baixa qualidade e pouco duradouros, peças acessíveis às massas. Mas, tendo em vista a complexidade dessa rede, não é difícil imaginar as coisas terríveis que podem acontecer quando o consumo desenfreado passa a ser mais valorizado na sociedade do que uma cadeia de suprimentos ética e transparente.

A maioria das roupas produzidas hoje são inspiradas em tendências, e por isso são pensadas para durar apenas uma estação – às vezes, nem tanto. Isso se chama obsolescência programada e é o motor da fast fashion, que é responsável pela grande quantidade de roupas que vão parar em aterros sanitários. Se antes era normal esperarmos por duas, no máximo quatro coleções anuais, hoje já há marcas a produzir 50 mini-coleções por ano! As pessoas acostumaram-se a simplesmente descartar os estilos da coleção passada para pendurar nos cabides as próximas novidades.

Em contraste com a moda rápida, o design considerado, típico do movimento a que se veio a chamar slow fashion, contempla cada fase da cadeia de suprimentos da roupa. O designer considera os materiais empregados, a produção e a fase de uso pelo consumidor sempre com um olho nos impactos ambientais daquela peça, minimizando os seus efeitos negativos no planeta.

1. O primeiro elo dessa corrente é o design. Nessa etapa são estabelecidos todos os pormenores da peça como o corte, os tecidos, as guarnições e acabamentos.

Muitas marcas já estão a abandonar o modelo fast fashion para adotar uma abordagem mais sustentável e uma estrutura de design cradle to cradle, que por sua vez é uma filosofia do design responsável, segundo a qual todos os produtos devem ser projetados para caber em um de dois ciclos: o biológico, que se encerra no retorno de produtos inofensivos à natureza; ou o industrial, que termina na reciclagem de materiais não degradáveis.

2. O segundo elo da cadeia é a produção de material têxtil, que envolve o complexo processo de cultivo ou criação da matéria-prima têxtil, a fiação para transformar em uma fibra, a tecelagem para transformar em um tecido e o tingimento e acabamento.

Essa é uma etapa de grande impacto ambiental devido à alta emissão de gases de efeito estufa associadas à contaminação do ar e da água potável. Além disso, estima-se que a indústria têxtil consuma 90 mil milhões de metros cúbicos de água por ano (são quase 3 mil litros apenas para produzir uma t-shirt e 10 mil para fazer umas calças de ganga). Não bastasse, milhares de produtos químicos sintéticos diferentes são usados ​​em todo o mundo para transformar matérias-primas em têxteis, e acabam por contaminar o solo, causando a perda de biodiversidade, a água usada para a agricultura e o consumo humano, assim como os próprios agricultores, que podem ser literalmente envenenados até a morte.

A produção de têxteis também é foco notório de trabalhos forçados e trabalho infantil, especialmente na etapa de colheita, fiação e tecelagem do algodão – há países onde as crianças são forçadas pelo próprio Governo a abandonar a escola para trabalhar nas colheitas. Felizmente podemos contar com algumas certificações oficiais que garantem a produção de algodão dentro de certos parâmetros éticos e ecológicos, como os selos Fair Trade e Global Organic Textile Standard (GOTS). Por isso é importante ficar atento às origens daquilo que consumimos.

3. O terceiro elo é a produção das roupas em si: corte, costura e acabamento de cada peça de roupa. Nos últimos 30 anos, a maior parte da produção foi transferida para países em desenvolvimento, principalmente na Ásia, em razão da mão de obra barata.

A chegada de grandes marcas de roupas aos países em desenvolvimento foi inicialmente celebrada como esperança de emancipação para milhões de trabalhadores. No entanto, fecharam-se os olhos para as péssimas condições de trabalho em algumas fábricas e oficinas. Insalubridade e insegurança, maus tratos, excessivas jornadas de trabalho, remuneração injusta… As violações aos direitos humanos e do trabalhador em alguns países são intermináveis. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, há quase 21 milhões de pessoas no mundo vítimas de trabalhos forçados na indústria de vestuário e têxtil – 11,4 milhões delas são mulheres e meninas, vítimas constantes de assédio sexual e discriminação.

Os impactos ambientais também são consideráveis, com alto consumo de energia e elevada geração de resíduos sólidos derivadas do desperdício.

4. O quarto é formado pela distribuição e o varejo. O transporte das roupas, que acaba por ser global porque a produção em massa é centralizada em determinados países, leva a um considerável aumento da poluição.
5. E o quinto e último elo dessa cadeia é o consumidor. Esse estágio compreende o uso, as lavagens e o descarte das roupas.

Muito do impacto ambiental de uma roupa vem das lavagens, e não apenas do cultivo, processamento e produção do tecido. A lavagem e secagem de uma blusa de poliéster, por exemplo, consome cerca de 6 vezes mais energia do que a necessária para o seu fabrico. 

E, apesar de serem considerados quase 100% reutilizáveis ​​ou recicláveis, as taxas de recuperação de têxteis para reciclagem, em geral, permanecem baixas. De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, em 2017 foram recolhidas mais de duzentas mil toneladas de têxteis nos resíduos urbanos, o que representa cerca de 4% do total de lixo produzido no país. Diretamente para os aterros sanitários. Nem reciclagem nem reaproveitamento. Lixo.

Felizmente, a Diretiva UA 2018/851, de 30 de maio de 2018, prevê a implantação da recolha seletiva de resíduos têxteis obrigatória a partir de 1 de janeiro de 2025. Mas, até lá, muitas toneladas de roupas ainda vão parar no lixo ou, com sorte, em contentores na via pública para reutilização – tema que, por si, merece outro post. 

Como se vê, a cadeia de suprimentos das roupas é um sistema complexo. E, apesar de parecer opressor, realmente precisamos estar conscientes do seu funcionamento, porque só assim poderemos tomar as nossas decisões de compra com base no desejo e no preço, mas também nos nossos valores.

Além disso, todas as marcas respondem às demandas dos consumidores. Se um número suficiente de nós exigir mudanças, a indústria da moda vai precisar repensar as suas práticas na cadeia de suprimentos. Todos nós temos o poder de fazer a diferença e contribuir para uma indústria fashion mais responsável e sustentável.

Vamos plantar essa semente!

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